(Coluna sobre a Volta ao Mundo – Expedição Caracol publicada nos jornais Tribuna do Paraná e Paraná Online em 05/11/14 – semana 50)
O trem avança lentamente pelos trilhos. Pela janela vão passando cenários tom de terra. A noite chega sem aviso no meio da tarde, desde às 4h30 não se vê nada lá fora além de algumas luzes e o brilho da lua. Já se passaram mais 24 horas desde que entrei no trem, e não estou nem na metade do caminho. Na minha cabine, três suíços que pouco falam inglês. A trilha sonora da viagem é um emaranhado de palavras em alemão e o chiado das rodas desbravando os quilômetros de trilhos.
Estou indo da Turquia para o Irã, de capital para capital. Eu poderia ter pego um voo, como qualquer pessoa ajuizada faria. Mas por algum motivo eu queria pegar o trem. Mesmo sabendo que levaria dois dias e meio pra chegar até Teerã. Não tenho pressa.
Tenho tempo. É o que mais tenho no trem: tempo. Tempo pra pensar. Pra absorveras tantas coisas que tenho vivido durante a viagem. Tempo pra refletir sobre o que fazemos com o tempo que temos. Tempo pra ficar comigo mesma. É praticamente um teste: quanto tempo você é capaz de passar consigo mesmo, sem se sentir mal com isso?
O trem era confortável, com verdadeiras camas, e com um vagão restaurante, onde eu passava boa parte do tempo pra variar o cenário. Depois de tanto tempo refletindo comigo mesma, resolvi que já era hora de sair da clausura e conhecer os outros doidos que encararam essa viagem. Um grupo de 5 portugas, um holandês e um croata rapidamente viraram meus novos best friends pelos próximos dois dias de sacolejo.
Na metade da tarde do segundo dia chegamos à estação de Tatvan, onde deixamos o primeiro trem e embarcamos em um ferry para cruzar o lago. Até então tudo corria nos conformes, o trem só tinha atrasado uma hora durante o percurso. Ainda estávamos na Turquia, mas dentro do ferry já rolava uma música iraniana nos alto falantes, com direito a gente dançando e batendo palmas. E aí começaram os boatos: alguns diziam que o ferry, que saiu às quatro da tarde, chegaria só à meia noite no píer; outros diziam que o próximo trem estava atrasado várias horas. Como todo bom boato, ninguém sabia o que era verdade. Por via das dúvidas, achei que a melhor solução era tirar um cochilo mesmo!
O ferry chegou na hora no píer, mas realmente o trem não estava lá. E em vez de deixarem a gente esperar por ele ali dentro, no quentinho, mandaram todo mundo sair e ir para uma sala de espera fria e sem bancos suficientes pra todo mundo. É, a calmaria estava demais pra ser verdade! E que comece o sassarico! Entra na fila do check in do trem, bota a mochila nas costas, volta pra dentro porque o trem ainda não chegou. Chega o trem, pega a mochila, vai lá fora, descobre que tem que esperar limparem a bagaça, volta pra dentro de novo. Mostra passaporte, pega a mochila, mostra passaporte, finalmente entra no trem, mostra passaporte, espreguiça, mostra passaporte…
Pelo menos nesse novo trem fiquei na cabine com um povo que falava inglês – os BBF holandês e croata, e um novo amigo italiano. Finalmente acomodados na cabine ultra aquecida, depois de três horas de sassarico, veio um cara oferecer janta. Chicken, só pra variar – só comi frango desde que comecei a viagem. Mas o engraçado é que ele não falava quase nada de inglês, então a comunicação se resumia a algumas palavras: chicken, dinner, tea. E finish, que foi o que ele falou alguns minutos após ter oferecido a janta: chicken finish! Rs… Por que oferece então, se não tem comida? O jeito foi jantar algumas bolachinhas e chazinho mesmo.
Nisso já era quase uma da manhã. E sabíamos que chegaríamos na fronteira dali a no máximo duas horas. Achamos melhor nem dormir, e ficar conversando até chegar lá, pra dormir depois. Não foi uma decisão muito esperta, porque acabamos ficando com sono na metade do tempo, e pouco tempo depois de que decidi dormir, fui acordada pelo moço do Chicken Finish mandando descer do trem. Zumbi total, lá fui eu, usando pela primeira vez o lencinho pra cobrir o cabelo – segundo os meninos, parecendo a avó deles… rs…
Processo lento pra carimbar o passaporte de saída da Turquia, mas éramos uns dos primeiros da fila. Fiquei toda felizinha, inocente, achando que poderia dormir depois de ter o meu carimbo, mas quem diz que o Chicken Finish me deixou entrar no trem? Só quando todo mundo tivesse sido carimbado… Toca esperar, dormindo igual cavalo até poder voltar pro trem e capotar de novo.
E aí eu achava que teria minha esperada noite de sono, mas foi um ledo engano – fui acordada duas vezes por um iraniano pedindo o passaporte, e tive que descer do trem de novo dali a uma hora na fronteira do Irã. Fica na fila uma hora, alguém fala que tem que pegar a mochila, volta pro trem, pega mochila, volta pra fila, espera todos os iranianos passarem na frente. E quando chega a nossa vez, o cara fala Finish e manda a gente passar, sem olhar passaporte nem mochila! Esse povo gosta de um Finish, hein!

Finally in Tehran!
Claro que acabei dormindo durante o dia, pra compensar essa noite deliciosa de fronteira. E a partir daí, comecei a usar o lenço a toda hora, até pra ir no vagão restaurante – mas pra ficar dentro da cabine, ou até pra ir ao banheiro, eu dava o migué e ficava à vontade mesmo. Afinal, eu tava dentro do trem, no máximo alguém me falaria pra cobrir o cabelo, né!
E acabou que todo esse vai e vem resultou em um pequeno atraso de 8 horas na viagem, apenas. Deveríamos chegar às 20h, mas a essa altura ainda estávamos bem longe de Teerã. Então tá, uma noite a mais no trem, terceiro dia sem banho! Na verdade isso era o que mais tava me incomodando – ficar tanto tempo sem nem uma ducha, só na sovaqueira! Pelo menos todo mundo tava na mesma situação, então não sentia tanto o drama do fedorzão!
E pra fechar com chave de ouro, uma nova noite de não sono – às 3h30 da madruga o Chicken Finish veio acordar a gente, dizendo que dali a meia hora chegaríamos em Teerã. Se pelo menos fosse verdade! Acordei, arrumei minhas coisas, e fiquei mais de uma hora sentada, meio dormindo meio acordada, esperando pela famigerada chegada no meio da madrugada na capital do Irã. Foi puxado, mas finalmente chegamos. Finish!
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Coluna sobre a Volta ao Mundo – Expedição Caracol publicada nos jornais Tribuna do Paraná e Paraná Online em 05/11/14 – semana 50.

9 comments
Muito legal adorei, vou te acompanhar toda vez agora, tenho 15 anos ainda mais quero fazer a mesma coisa que você, é tenso morar em um país que vc trabalha o ano todo e não pode viajar pra onde quer. Enquanto isso vou lendo suas dicas KKK. Mande mais dicas para mim, já faco inglês, já é um começo. Adotlrei suas historias beijos.
Legal Lucas! Isso aí, vai estudando inglês e guardando grana quando começar a trabalhar! ;)
bjs,
Carol
Rir do sofrimento alheio não é algo que me orgulho. Mas confesso que para cada perrengue que tu passaste a altura da minha risada ia aumentando!
rsrssrs
E como dizem por aí, muitas vezes a aventura está no caminho e não propriamente no destino!
Aproveite!
Detalhe: suas fotos do Irã no facebook estão incríveis – Inveja branca!
Bjs!
rs… que legal Weligtonn! ;)
bjs
Que aventura ein? No fim, valeu a pena ter pego o trem, pelo menos tem mais histórias pra contar.
Te acompanhando, prentendo fazer o que está fazendo agora daqui a uns anos.
Verdade Rafael! Foi demais! =)
bjs
Carol, venho te acompanhando a algum tempo. E amo o seu estilo de viagem e pretendo fazer o mesmo, em breve.
Ao ler este post, me surgiu duas dúvidas.
Como você se sente quando está viajando sozinha e sem ninguém que fale a mesma língua que você? Qual é a parte mais difícil (sempre tem uma) de se viajar sozinha?
Obrigada e parabéns pelo blog :)
Oi Loryene, tudo bem?
Durante a viagem eu falo inglês praticamente o tempo todo, vocÊ acaba se acostumando. Não sei se você já viu, mas tem um post falando exatamente sobre viajar sozinha, sobre prós e contras! ;)
bj