Porque tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda

by Carol Moreno

(Coluna sobre a Volta ao Mundo – Expedição Caracol publicada nos jornais Tribuna do Paraná e Paraná Online em 19/11/14 – semana 52).

Não enxergo nada. A escuridão é total. Tateio a bolsa em busca de algo pra iluminar o caminho. Só escuto o som dos meus passos, intercalados pela minha respiração. Meu coração acelera quando o som de um apito rompe o silêncio, seguido por passos apressados escada abaixo. Me pegaram. Imagens de iranianas de hijab no presídio feminino e chamadas no Jornal Nacional pipocam na minha cabeça: Brasileira é presa no Irã invadindo área proibida.

Irã - ShirazMas não, não estou escrevendo a coluna de hoje de dentro do presídio, Inshallah! Talvez minha curiosidade e espírito de aventura sejam um pouco além dos limites para uma mulher em terras muçulmanas, mas felizmente o traquejo brasileiro não me deixa na mão.

Eu estava em Persépolis, a antiga capital do império persa, que foi destruída por Alexandre, o Grande, querendo fotografar as esculturas que enfeitavam as paredes da cidade. O fato é que as mais bonitas ficam fora do alcance do público, em uma área delimitada por cordas. Até então este ser que vos fala estava comportado, mas bastou ver duas meninas dentro da tal área proibida, pra um pensamento criar vida: Se elas podem, eu também posso!

A foto proibida! haha...

A foto proibida! haha…

Procurei um lugar escondido pra penetrar nos confins inacessíveis, e fui desbravando cada canto, tirando fotos como se não houvesse amanhã. Já estava voltando para a área permitida, quando uma escadaria que levava para um túnel se materializou na minha frente. Ó céus, como resistir?

Mas mal comecei a andar pelo túnel, um guardinha surgiu correndo atrás de mim, apitando e falando algo como xxdhhdafa ahfahfa em farsi. Eu sabia que os 5 anos de teatro que fiz não seriam em vão. Enquanto ele revirava minhas coisas (procurando por uma bomba, será?), a cara de tonta inocente que fiz foi tão impagável (Ah, era proibido? Eu não sabia, desculpe!), que assim que ele viu que eu não oferecia perigo, logo virou meu melhor amigo, abrindo um sorrisão quando falei que era do Brasil!

Irã - ShirazNão foi dessa vez que eu fui pra cadeia. E nem na próxima, em um dos meus últimos dias no Irã – mas, tenho a dizer a meu favor, meritíssimo, que dessa vez eu não tive culpa nenhuma!

Eu estava meramente andando pela rua, com o cabelo devidamente coberto, quando um carro de polícia parou ao meu lado. Vi duas iranianas de chador no banco de trás, e até pensei que elas estavam de carona. Não dei bola, mas elas vieram apressadas atrás de mim, falando outros xcvhdjfahd. Sorri pra elas (dessa vez verdadeiramente tonta inocente!), falei Sorry, no farsi, e só quando elas falaram Passport! é que percebi que elas também eram puliça! Minha blusa tinha subido criminosamente acima das minhas curvas (vulgo Zanfa), mas felizmente foi um delito fácil de resolver, puxando a blusa pra baixo, e a réu foi declarada inocente.

Mais uma foto escondida, só pra não perder o espírito de aventura... rs

Mais uma foto escondida, só pra não perder o espírito de aventura… rs

Pois é, eu não podia ir embora do Irã sem essa! E olha que nem quebrei tantas regras assim, não bebi, não festei, não mostrei o cabelo, não beijei em público, só dei oi e tchau com aperto de mão… O país é incrível, as pessoas são sensacionais, mas infelizmente quase tudo é ilegal ou imoral… E, pra não contradizer o rei, engorda!

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Coluna sobre a Volta ao Mundo – Expedição Caracol publicada nos jornais Tribuna do Paraná e Paraná Online em 19/11/14 – semana 52.

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