Vivendo em um monastério budista no Myanmar

by Carol Moreno

Trabalho voluntário no Myanmar

Guest post feito por Juju Cristine, do instagram @jujucristine_life, a convite do Mochilão Trips. Juju viveu 2 anos no Myanmar, voluntariando em um monastério budista.

Há muito tempo tinha a ideia de visitar o Myanmar para entender melhor a história do país e vivenciar a cultura, mas por diversas razões essa viagem não dava certo. Felizmente em Abril deste ano, 2017, sem muito planejar, apenas com a ideia de ficar duas semanas no pais.

Desembarquei em Yangon, durante o Festival das Águas, como é chamada a celebração do ano novo budista. E com um sábado chuvoso o Myanmar me recebeu de portas abertas. Chegando no hostel conheci uma polonesa e um italiano que me fizeram companhia por lá e com quem segui viagem para Bagan e depois Mandalay. Foram 9 dias de passeios por estas três cidades e que foram suficientes para me apaixonar por esse país.

Ao chegar em Nyaung Shwe, cidadezinha vizinha da famosa Inle Lake, fui visitar a Pu Sue, proprietária da escola de culinária local Bamboo Delight e pioneira em projeto social no vilarejo onde vive. Fui conhecer-la pessoalmente, pois uma grande amiga me falou tanto dela e tanto do monastério onde fez trabalho voluntario por algumas semanas, que algo dentro de mim dizia, você precisar ir conhecer essa pessoa tão incrível.

E sou imensamente grata por Pu Sue hoje fazer parte da minha vida, ela se tornou uma inspiração, pois ela coloca em prática tudo o que eu sempre quis fazer pela minha comunidade, mas até então não tinha encontrado o “como” e o “onde” fazer. Ela tem uma história de vida incrível e projetos sensacionais. Hoje eu colaboro com ela para fazer todos esses projetos saírem do papel. Foi ela quem me ajudou a chegar até o monastério onde vivo atualmente.

Pois bem eis que no dia 25 de Abril depois de uma viagem de 3 horas por uma estradinha de chão empoeirada eu desembarquei em Phayartaung. E mal sabia eu o quanto este lugar mudaria a minha vida.

Inicialmente ficaria por aqui de uma a duas semanas, afinal entrei no Myanmar com um visto de turista válido por 28 dias. E o plano era seguir para Índia depois disso. Mas como todo planejamento na minha vida não funciona. No término do meu visto fui conversar com os monges e tanto eu quanto eles queriam que eu ficasse por aqui mais tempo, depois de muito pesquisar vi que seria possível aplicar por um visto religioso, de meditação, para ficar no país por mais 70 dias. O monastério forneceu os documentos necessários e eu segui para Bangkok, para providenciar o visto na Embaixada do Myanmar e então retornar por uma estadia maior.

Vivendo no monastério encontrei meu propósito de vida. Não tenho palavras para explicar como ensinar e aprender diariamente com todos aqui me enriquece e me torna uma pessoa mais feliz e amada. Pouco a pouco cada um foi tornando-se parte da família e hoje aqui transformou-se em meu segundo lar.

Trabalho muito dando e preparando aulas, ajudando nas tarefas diárias para manter tudo em bom funcionamento. Pouco a pouco trazendo ideias e sugestões para melhorar um pouco a vida dos que aqui moram.

Crédito do vídeo: Patrícia Alves

Decidi celebrar meu aniversário de 33 anos, no monastério, fazendo uma surpresa para as mais de 1000 crianças que vivem aqui. Comprei biscoitos diversos e entreguei para cada uma delas. Porém a maior surpresa quem recebeu fui eu, pois em um coro lindo todas cantaram ‘Happy Birthday Juju’, que ao lembrar faz meus olhos enxerem de água de tanta emoção. E não parou por ai, Pu Sue e a família apareceram aqui de surpresa com rosas e um lindo bolo de aniversário. Foi um dia muito especial e de muita felicidade.

Para celebrar meu aniversário, decidi que queria fazer algo duradouro para o monastério e que pudesse perdurar por anos e anos independente da minha presença por aqui. Criei então uma crowdfund e compartilhei com amigos do mundo todo, pedindo por contribuições para montar uma biblioteca no monastério e melhorar a biblioteca que a Pu Sue no vilarejo dela. E foi um sucesso absoluto, o valor arrecado está sendo utilizado para a compra de livros e preparação dos moveis para a biblioteca.

Phon PhonGyi, o monge responsável pelo monastério e o pioneiro em trazer educação para essa região, está à frente disso tudo desde 1983, e tudo o que fez e faz é com auxílio de doações. Atualmente são mais de 1000 crianças morando e estudando aqui. O monastério disponibiliza dormitório, alimentação, estudo do budismo e meditação, atividade física, treinamentos diversos como corte e costura, informática, conversação de inglês entre outros. Tudo é feito por voluntários estrangeiros e locais ou serviços contratados devido doações recebidas.

O governo começou a dar educação para as crianças aqui no vilarejo há apenas 4 anos, mas fornece apenas a sala de aula, material e professores. Todo o resto é feito pelos monges. Há algumas pessoas que estão sempre ajudando nos projetos. Hoje parte da renda do monastério vem da venda de água de mineral, um projeto do grupo Inle Trust. Há um projeto em andamento do mesmo grupo para a criação de um centro de meditação para o próximo ano. Pouco a pouco estão surgindo mais e mais pessoas de bom coração dispostas a nos ajudar.

Recentemente abriu um pequeno hotel no vilarejo, o Inle Sanctuary Phayartaung, que tem beneficiado muito a região, pois o proprietário tem consciência do quão importante é trazer pessoas para fazer turismo responsável na região, muitos dos hospedes visitam o monastério e acabam contribuindo com algum valor em dinheiro, com seu tempo dando palestras e/ou batendo papo com os estudantes, o que os incentiva a praticar inglês e a perder a timidez. Eu também colaboro ajudando no hotel sempre que tenho tempo livre, ajudando na rotina administrativa, dando aula para a equipe que trabalha lá e etc.

Meu dia aqui começa as 4 AM quando me junto as crianças para as preces e meditação diária, depois fazemos atividade física e então tomamos café da manhã. As crianças vão para a escola e eu vou dar minhas aulas de inglês para os monges e para os ex-alunos que são trabalhadores voluntários e ajudam a manter tudo organizado e funcionando. No final do dia me junto as minhas alunas e vamos tomar banho a beira do lago, água geladinha e natural com direito a um visual indescritível de tão lindo. Me visto como os locais e adoro minhas roupas coloridas, usar calça ou sapatos já não é mais tão confortável como antes. Andar descalço, ter os pés e as mão sempre com um pouco de barro e poeira já nem me incomoda mais. Raramente tenho momentos onde fico sozinha, pois sempre há alguém por perto que quer praticar inglês ou apenas segurar minha mão.

Acordar e dormir todos os dias sorrindo, já nem me lembrava mais como era. Recebo tanto carinho dos estudantes, dos monges, dos moradores do vilarejo, dos visitantes, dos pais dos alunos. A maioria deles nunca viu um estrangeiro e muitos acham graça quando me escutam falando algumas poucas palavras e expressões em idioma local.

Sou muito grata e me sinto muito honrada em poder ter a oportunidade de participar um pouco da vida de cada uma dessas pessoas. Elas não fazem ideia que elas me ensinam muito mais do que eu jamais poderia ensiná-las.

Muitos amigos me perguntam quando irei embora, quando seguirei viagem. E minha resposta é sempre a mesma, ainda não estou pronta para deixar o Myanmar, pois tenho muito o que aprender aqui ainda. Para minha alegria os monges me pediram para ficar mais tempo e meu coração inundou de felicidade. No momento estou em meio ao processo de extensão do visto, tudo sendo aprovado, devo ficar pelo menos mais três meses por aqui.

Aqui aprendi que nós podemos sim fazer o que gostamos e ser felizes trabalhando o que amamos. Eu nunca imaginei em ser professora, e aqui descobri que amo essa profissão. Todo o dinheiro que eu tinha planejado usar em minha viagem eu doei para o monastério. Atualmente estou há 6 meses sem receber salário e não poderia estar mais feliz hehehe… Saudades de casa, da família, dos amigos, tenho diariamente. Felizmente eles apoiam e entendem minha decisão de aqui ficar.

Minha sugestão para você: seja feliz, faça o bem, não se acomode.

E se quiser fazer uma criança feliz e dar a ela a chance de um futuro melhor, saiba que você pode me ajudar a dar continuidade a esse sonho!

Quer saber como?

PLANOS FUTUROS

Agora depois de quase 7 meses de volta ao Brasil, decidi que volto ao Myanmar em 2020, para dar continuidade aos meus projetos.

Dentro de mim existe um sentimento, um chamado para voltar e continuar o trabalho que iniciei. Mas para isso preciso da sua colaboração. Estou trabalhando na cidadezinha onde moro, Prudentópolis, no Paraná.

E o dinheiro que ganho aqui espero conseguir comprar minha passagem aérea, porém preciso também arcar com o custo de todo o material que uso em aula e para todos os alunos, além do visto para ficar por lá por pelo menos um ano.

Então estou fazendo uma Vakinha Online, e se puder contribuir ou ao menos compartilhar o link com amigos agradeço imensamente. Seu apoio e bondade farão a diferença. No link da vakinha tem um vídeo mostrando todo o trabalho que desenvolvi nos dois anos em que trabalhei como voluntária no Myanmar.

A doação pode ser feita aqui neste link com cartão de crédito ou boleto bancário. Quando eu estiver no Myanmar enviarei notícias de como o dinheiro estará sendo utilizado.

E não se esqueça: fazer o bem ao próximo é fazer o bem a si mesmo.

Acompanhe a Juju no instagram em @jujucristine_life.

“You cannot travel the path until you have become the path itself” – Buddha

 

SOBRE A JUJU, AUTORA DO POST

Curitibana, formada em logística, já morou e trabalhou em navio de cruzeiro na Europa, viveu em Cingapura por quase quatro anos onde trabalhou em call center e com exportação de rolamento automotivo e industrial. Sempre em busca de novas aventuras e experiências, adora viajar para lugares alternativos e vivenciar a cultura local. Adora bater papo e contar suas peripécias de viagem. Seu perfil no instagram é @jujucristine_life, e viveu por 2 anos no Myanmar, sendo voluntária em um monastério budista. Em 2020 pretende voltar pra lá e continuar o trabalho feito durante esses 2 anos.

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7 comments

Magda Hino 18/07/2017 - 13:26

Estou imensamente emocionada. Me fez chorar rios agora lendo esse post. Mais feliz ainda fico de ter feito parte dessa história linda de amor. Você é luz por onde passa Juju!

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Carol Moreno 18/07/2017 - 16:16

História linda mesmo!

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Cristiane Lizabeth da Silva 18/07/2017 - 13:48

Que lindo! História emocionante e que servirá de inspiração para muitas pessoas. Te admiro cada vez mais e sinto um orgulho imenso de ter você como minha filha. Gratidão por fazer parte da minha vida! Te amo demais.

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Carol Moreno 18/07/2017 - 16:16

Tem que ter orgulho dessa filha mesmo! =)
A Juju é demais!

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Sandra 21/07/2017 - 02:26

Parabénssss é o que consigo dizer agora com uma história tão linda bjssss e continue firme em sua caminhada ?

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Marjorie Brilhante Veloso 03/04/2018 - 11:43

Meus olhos se encheram de lágrimas! Aconteceu exatamente o mesmo comigo, estava viajando por mais de dois anos quando encontrei o Myanmar, que mudou minha vida por completo, fui para um mês, mas acabei fazendo o visto de meditação também! Trabalhei no ThaBarWa, um monastério que caso você ainda esteja no Myanmar super recomendo, é um lugar inexplicável, juro.
Sai do Myanmar há apenas uma semana e meu coração está apertado, ainda não sei como lidar com a saída, apenas seguir e compartilhar essa experiência.
Parabéns pelo blog, primeiro blog de mochileiros que me identifiquei, obrigada.

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Carol Moreno 03/04/2018 - 21:29

Que legal, Marjorie! O Myanmar é realmente um país incrível, que muda a gente!
Que bom que você viveu essa experiência por lá!

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