Hoje me vi pensando nas coisas que já tive. Olhei por uma janela e vi um vaso de planta que já fez parte da minha casa. Abri meu armário e lembrei de uma blusa que eu gostava mas que já doei há muito tempo. Olhei para a vaga vazia da garagem e lembrei do carro que tive por dez anos e que vendi pra viajar. Lembrei até de coisas aleatórias. Meu celular que parecia um sabonetinho. Um livro que emprestei pra uma amiga e que nunca mais voltou. A barraca que deixei na casa de um amigo na Eslovênia.
Elas entram na nossa vida como quem não quer nada, e de mansinho passam a fazer parte dela. E a gente se apega, sem nem perceber. E quando se dá conta, elas já dominaram tudo. É uma bolsa irresistível que estava na vitrine, um sapato lindo que apareceu na novela no outro dia, um celular que tem o indispensável recurso de tirar uma selfie automática, um home theater que transforma a sala em um cinema. Uma nova vontade depois da outra. Uma coisa mais incrível que a outra. Mais indispensável que a outra.
Já tive muitas coisas. Ainda tenho outras tantas. Mas aprendi a abrir mão de muitas delas. Aprendi que é possível viver sem tanto conforto.
Sem estar na última moda. Sem ter o carro do ano (ou carro nenhum!), ou o celular da última geração.
Viajando fiquei em casas de pessoas cujo único móvel era uma esteira no chão. Sem cama. Sem colchão. Sem sofá. Em casas onde o banheiro era uma casinha lá fora. Sem descarga. Sem luz elétrica. Em outras onde o banho era tomado de caneca. Sem água quente. Sem chuveiro. E se você acha que por conta disso essas pessoas eram infelizes, está totalmente enganado.
A gente precisa de coisas pra viver. Não tô dizendo que temos tem que largar mão de tudo, e viver hippie ou nômade por aí. Mas para pra pensar: quando é que as coisas passaram a ser o que há de mais importante? É você que tem as coisas, ou são as coisas que te tem?
De quantas coisas você é capaz de abrir mão? Você conseguiria viver sem ter uma residência fixa? Sem ter um carro? Sem ter trinta pares de sapatos? Sem um chuveiro a gás, um colchão box, um cooktop, um iphone 6?
Não é fácil desapegar. Mas é um ótimo exercício. Quando você começa a não depender mais dessas coisas todas, encontra prazer em momentos e experiências que não seriam possíveis antes.
Quanto menos você tem, mais claro fica como é possível ser feliz sem ter tanto.
Quem não tá acostumado a tomar banho em chuveiro a gás fica feliz com qualquer chuveiro quente. Quem se acostuma a carregar a toalha molhada na mochila sabe a alegria que é ver que o hostel tem uma toalha limpa. Quem viaja por meses com uma mochilona aprende que não precisa de mais que cinco roupas diferentes pra viver numa boa.
Já tive muitas coisas que hoje não tenho mais. Elas se foram, mas em vez de um vazio no lugar, deixaram experiências.
Uma volta ao mundo. Perrengues, causos, alegrias. Pés com bolhas de tanto caminhar. Um bronzeado com as marcas da mochila nas costas. Dormir congelando em uma barraca. Dias camelando em um trekking. Horas com a barriga se contorcendo dentro de um busão.
Pegar carona em uma estrada quase vazia depois de horas esperando. Ver a neve pela primeira vez. Dormir ao relento. Subir montanhas. Nadar com tartarugas gigantes. Dançar salsa com peruanos. Fazer amigos em cada canto do mundo. Rir até não poder mais.
Posso não ter muitas coisas. Mas não me faltam experiências e histórias, e muito menos um sorriso na cara. Não é à toa que dizem que Viajar é a única coisa que você compra que te deixa mais rico. Não poderia concordar mais.
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22 comments
Excelente!! O desapego é algo para se praticar diariamente em maior ou menor proporção… e vale a pena!
Bem isso, Jr!
Texto incrível!
Que bom que você gostou, Biah! =)
Caracol sempre arrasando hahah, adorei!
Perfeito!
bem isso mesmo Carol e ainda é comprovado cientificamente… rs
http://www.papodehomem.com.br/a-ciencia-que-explica-porque-se-deve-gastar-o-dinheiro-em-experiencias-e-nao-em-coisas
Que legal Ricardo, não sabia disso! Adorei! =)
Tem olhos em minhas lágrimas rsrs. Adoro suas postagens, sinto uma liberdade quando leio seus textos. Uma vontade louca de largar tudo e ir viver histórias reais.
Parabéns pela linda vida que tem :)
rs… Que bom que curtiu Sammantha! Fico feliz em saber!! Quando puder, vá mesmo!
bjs,
Carol
Muito me encoraja ler tuas historias para viver a minha!!
aho
Que bom Thaise! =)
Esse é um tema recorrente nas minhas reflexões.
belos pensamentos!!
pratico o desapego, pra quem gosta de viajar isso é fundamental…
que bom Gabriel! É fundamental mesmo! =)
Carol, seu texto não poderia ser mais verdadeiro! Me identifiquei muito, é um alento saber que não estou sozinha na maneira de pensar! Uma vez eu estava contando empolgadamente sobre uma viagem e ouvi de um parente “eu não entendo de onde vem tanto dinheiro pra viajar esse tanto q vcs viajam” , depois de alguns segundos atordoada com o que ouvi (até porque essa pessoa ganha no mínimo umas 5x mais do que eu), consegui responder: te garanto que nós não exercemos nenhuma atividade ilegal ou imoral. É uma questão de prioridade. Vem do carro q eu não troco todo ano, da maquiagem mac que eu não compro, das roupas de marca que eu não uso, da coleção de bolsa/sapato que eu não tenho, da unha que eu mesma faço, de todo e qualquer luxo que eu abro mão, seja viajando ou não.
É estranho, mas não é socialmente “aceitável” vc ter um carro velho 1.0, sem direção hidráulica nem ar condicionado, e gastar dinheiro viajando pra África! Ou pra Asia! ( porque né, se for pros EUA até pode! Kkkkk) Vai entender!
Ainda bem que a gente já descobriu o quanto é libertador trocar coisas por experiências!
Bjs e desculpas pelo comentário-desabafo rsrs!!!
haha… Adorei Marcela! É bem isso mesmo, quem gasta uma grana com bens materiais não consegue entender como a gente viaja tanto! Tudo é uma questão de prioridades =)
É nóis, guria!
Sensacional!!!!
Olá! Tenho exatamente a mesma perspetiva de vida, até porque nunca gostei de comprar muitas coisas, as “coisas” nunca me fascinaram. Quando comecei a viajar mais – e não é preciso apanhar avião para viajar – é que comecei a perceber que as experiências contam mais, muito mais! E gostei muito do teu blog, muito organizado e adorei os textos. Vou continuar a visitar :)
Que bom, Diana! As experiências contam muito mais mesmo!
bjs!
Carol
Belo texto Carol, me identifiquei! Viajar é a melhor coisa da vida!!
Boa viagem!!!
Beijos
Que bom, Alessandra!
Valeu!
bjs